Em 11 de março de 2020, a
Organização Mundial da Saúde declarou o surto de COVID-19 (coronavirus) como uma
pandemia,
ou seja uma epidemia de doença infecciosa que se espalha entre a
população de uma grande região geográfica como um continente ou mesmo o
Planeta Terra. Vivendo nesta nova realidade, enfatizamos a importância
da prevenção de doenças, seja com hábitos de higiene, vacinas e outras
políticas públicas de saúde, sanitária e também pelas experiências
passadas. Procuramos trazer para as Dicas de Leitura de março livros
conhecidos pelo tema ou pelas épocas de sérias epidemias. De obras
clássicas a publicações recentes, fatos reais e fictícios, os autores
apresentam suas visões para que os leitores interpretem e absorvam suas
histórias.
Lisboa não tem beijos nem abraços
Não tem risadas ou terraços.
E nem passagens
Ou apertos de mão entre garotas e garotos
Tem praças cheias de ninguém.
Ainda tem sol, mas não tem.
Não a gaivota da Amália nem vela nenhuma
não restaurantes ou bares nem cinema
Ainda é fado é poesia ainda
Fechada dentro de si mesma é Lisboa ainda
cidade abertaAinda a Lisboa de Pessoa alegre e triste.Que em todas as ruas desertas
Ainda resiste.
Lisboa ainda - Manuel Alegre - 20 de março de 2020
O amor nos tempos do cólera - GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel
Ainda muito jovem, o telegrafista, violinista e poeta Gabriel Elígio
Garciá se apaixonou por Luiza Márquez, mas o romance enfrentou a
oposição do pai da moça, coronel Nicolas, que tentou impedir o casamento
enviando a filha ao interior numa viagem de um ano. Para manter seu
amor, Gabriel montou, com a ajuda de amigos telegrafistas, uma rede de
comunicação que alcançava Luiza onde ela estivesse. Essa é a história
real dos pais de Gabriel García Márquez e foi ponto de partida de 'O
amor nos tempos do cólera', que acompanha a paixão do telegrafista,
violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza.
A cavalo pálido, cavaleiro pálido - PORTER, Katherine Anne
Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro (1939) é uma reflexão profunda sobre a
natureza humana e a futilidade da guerra. Reúne três novelas essenciais
na obra de Katherine Anne Porter: Velha Mortalidade, O Vinho do Meio-Dia
e o conto que dá nome a este tríptico, tido pela obra-prima da autora.
Estudo magistral sobre o mal, O Vinho do Meio-Dia é uma história de
ganância e crime numa quinta do Sul do Texas, inspirada na paisagem de
infância da autora. Em Velha Mortalidade e em Cavalo Pálido, Pálido
Cavaleiro, enredam-se a infância, dominada pela enigmática figura da tia
Amy e por histórias de família, e a vida adulta da heroína Miranda,
alter ego da autora. Num brilhante exercício de escrita, Cavalo Pálido,
Pálido Cavaleiro revela a mente febril de Miranda, os seus delírios e
memórias estilhaçadas, quando, vítima da gripe espanhola, está à beira
da morte.
A dança da morte - KING, Stephen
Após um erro de computação no Departamento de Defesa, um vírus é
liberado, e um milhão de contatos casuais formam uma cadeia de morte: é
assim que o mundo acaba. O que surge em seu lugar é um ambiente árido,
sem instituições e esvaziado de 99% da população. É um lugar onde
sobreviventes em pânico escolhem seus lados ou são escolhidos. Os bons
se apoiam nos ombros frágeis de Mãe Abigail, com seus cento e oito anos
de idade, enquanto todo o mal é incorporado por um indivíduo de poderes
indizíveis: Randall Flagg, o homem escuro. Neste livro, King cria uma
história épica sobre o fim da civilização e a eterna batalha entre o bem
e o mal. Com sua complexidade moral, ritmo eletrizante e incrível
variedade de personagens, A dança da morte merece um lugar entre os
clássicos da literatura contemporânea.
O enigma de Andrômeda - CRICHTON, Michael
Quando um misterioso elemento espacial aniquila uma cidade no estado do
Arizona, a maior crise já vista na ciência se inicia na procura por
respostas. E dois sobreviventes podem ser a chave para conter uma
tragédia ainda maior. De Michael Crichton, mesmo autor de Jurassic Park e
o Mundo Perdido, o techno-thriller O Enigma de Andrômeda inspirou um
filme homônimo, lançado em 1971, que tornou-se referência para os fãs de
ficção científica. Mais tarde, em 2008, Ridley Scott adaptou o livro
para uma série de TV, que ganhou indicações para o Emmy Awards.
Ensaio sobre a cegueira - SARAMAGO, José
Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro
caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente.
Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência
humana, numa verdadeira viagem às trevas.O Ensaio sobre a cegueira é a
fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter
olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma
imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo
milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como
Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência
imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José
Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a
lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada
leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que
não tem nome, essa coisa é o que somos".
Estação onze- MANDEL, Emily St. John
Certa noite, o famoso ator Arthur Leander tem um ataque cardíaco no
palco, durante a apresentação de Rei Lear. Jeevan Chaudhary, um
paparazzo com treinamento em primeiros socorros, está na plateia e vai
em seu auxílio. A atriz mirim Kirsten Raymonde observa horrorizada a
tentativa de ressuscitação cardiopulmonar enquanto as cortinas se
fecham, mas o ator já está morto. Nessa mesma noite, enquanto Jeevan
volta para casa, uma terrível gripe começa a se espalhar. Os hospitais
estão lotados, e pela janela do apartamento em que se refugiou com o
irmão, Jeevan vê os carros bloquearem a estrada, tiros serem disparados e
a vida se desintegrar. Quase vinte anos depois, Kirsten é uma atriz na
Sinfonia Itinerante. Com a pequena trupe de artistas, ela viaja pelos
assentamentos do mundo pós-calamidade, apresentando peças de Shakespeare
e números musicais para as comunidades de sobreviventes. Abarcando
décadas, a narrativa vai e volta no tempo para descrever a vida antes e
depois da pandemia. Enquanto Arthur se apaixona e desapaixona, enquanto
Jeevan ouve os locutores dizerem boa-noite pela última vez e enquanto
Kirsten é enredada por um suposto profeta, as reviravoltas do destino
conectarão todos eles. Impressionante, único e comovente, Estação Onze
reflete sobre arte, fama e efemeridade, e sobre como os relacionamentos
nos ajudam a superar tudo, até mesmo o fim do mundo.
Morte em Veneza - MANN, Thomas
Em A Morte em Veneza, Thomas Mann apresenta uma escrita complexa e
profunda, onde quase cada parágrafo pode ter várias leituras. Em
contraponto, o enredo é praticamente inexistente: um homem de meia-idade
viaja até Veneza, apaixona-se platonicamente por um jovem rapaz polaco
extremamente atraente e morre sem sequer ter trocado uma palavra com
ele. Durante um passeio em Munique, Gustav von Aschenbach, autor
consagrado, decide romper com a rotina e partir em viagem chegando em
Veneza. Em seu hotel, depara com um adolescente de extrema beleza, de
uma família polaca: o jovem Tadzio. O tempo quente e úmido afeta a saúde
de Aschenbach, que decide partir, mas a caminho da estação começa a
arrepender-se, e quando descobre que a sua bagagem foi encaminhada para o
comboio errado e que terá que aguardar o seu retorno, fica satisfeito
por poder continuar na proximidade de Tadzio. Embora observe Tadzio
obsessivamente, jamais ousa falar com ele, no máximo trocam um olhar
furtivo e fugaz um com o outro. Apesar dos sinais de uma epidemia de
cólera, que é ocultada pelas autoridades para não prejudicar o turismo,
mas que lhe é revelada por um agente de viagens britânico, Aschenbach
permanece em Veneza, sacrificando sua dignidade e bem-estar pela
experiência imediata da beleza corporificada por Tadzio. Poucos dias
depois, Aschenbach descobre que a família polaca planeia partir; vai até
a praia onde está Tadzio com um menino mais velho, Jasiu. Os dois
rapazes lutam, e Tadzio é facilmente vencido. Com raiva, deixa o seu
companheiro e se dirige à parte do mar próxima de Aschenbach. Após
contemplar por um momento o mar, dá meia volta para olhar o seu
admirador. Para Aschenbach, é como se o menino estivesse a acenar-lhe.
Tenta levantar-se e retribuir, no entanto caí morto na sua cadeira. Seu
corpo é descoberto minutos depois. "E ainda no mesmo dia, um mundo
respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte."
Oryx e Crake - ATWOOD, Margaret
“No princípio havia o caos.” O Homem das Neves pode ser o último homem
na terra, o sobrevivente solitário de um apocalipse sem nome. Quando
ainda se chamava Jimmy, ele vivia com os pais nos Complexos, cidadelas
fundadas por multinacionais onde a elite financeira do planeta dava seus
primeiros e pouco inibidos passos na direção da engenharia genética, na
tentativa de atender as constantes demandas dos conglomerados
farmacêuticos. Agora, o Homem das Neves vive em um amargo isolamento,
sobrevivendo como um pária em seu próprio habitat. Quando não precisa
sair em busca de comida em um deserto infestado de insetos, ou encarar a
destruição da antiga plebelândia, a terra dos desprivilegiados, hoje
povoada pelos animais criados nas experiências transgênicas do passado,
seu único prazer está em assistir a filmes antigos em DVD que o fazem
lembrar do mundo de outrora e em entreter os Filhos de Crake, crianças
de uma nova espécie com estranhas habilidades que o tratam como um
ídolo. Como tudo veio abaixo tão depressa? Enquanto o Homem das Neves
reconstitui suas lembranças na tentativa de descobrir as origens dessa
catástrofe irreversível, sua mente é povoada pelas vozes de seus amigos
da juventude, o enigmático Crake e a sedutora Oryx, personagens-chave
por trás do Projeto Paradiso, o grande responsável pela modificação
definitiva da Terra e a derrocada da espécie humana. O primeiro de uma
trilogia que inclui O ano do Dilúvio e se encerra com MaddAddão, Oryx e
Crake consolida o retorno de Margaret Atwood ao gênero da ficção
científica, em uma narrativa marcada pelas questões éticas e morais
sobre o futuro da humanidade, e na qual a verdade está na descoberta dos
mundos interiores de seus personagens. Por mais estranho que tudo
pareça, o futuro é um cenário assustadoramente familiar.
A peste - CAMUS, Albert
Romance que destaca a mudança na vida da cidade de Orã depois que ela é
atingida por uma terrível peste, transmitida por ratos, que dizima sua
população. É inegável a dimensão política deste livro, um dos mais lidos
do pós-guerra, uma vez que a cidade assolada pela epidemia lembra a
ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial. A peste é
uma obra de resistência em todos os sentidos da palavra. Narrado do
ponto de vista de um médico envolvido nos esforços para conter a doença,
o texto de Albert Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e
outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem
moderno.
Salão de beleza - BELLATIN, Mario
A obra narra em poucas páginas como um cabelereiro travesti transforma
seu estabelecimento no último abrigo de uma série interminável de jovens
vítimas de uma peste incurável. O protagonista, que não tem nome, assim
como o lugar onde a história acontece, assiste à agonia simultânea de
seus hóspedes e dos peixes de seus aquários sem ter a menor intenção de
curá-los, até chegar a sua própria agonia. “Evidentemente não se trata
de nenhuma madre Teresa de Calcutá em versão travesti”, explica
Bellatin, “pois ele mesmo zomba daqueles que ajudam os doentes com ânimo
piedoso, como as freiras ou determinadas organizações solidárias. Sua
lógica da morte disfarçada de filantropia pode ser muito perversa, mas
seus raciocínios são impecáveis: com sua ajuda, os doentes terminais
sofrem menos”. No salão transformado em morredouro não são aceitos nem
mulheres nem contaminados sem sintomas, e também não entram remédios.
Um diário do ano da peste - DEFOE, Daniel
Defoe escreveu uma reportagem sobre a epidemia de peste bubônica que
dizimou 70.000 vidas em Londres, no ano de 1665. Misturando reportagem e
ficção, se esmera em registrar os fatos sem deixar de lado a técnica do
escritor, criando personagens, tratando literariamente as cenas,
cedendo ao ritmo indispensável de diálogos que recompõem um clima
novelesco irresistível. Este livro tem sido modelo, há quase trezentos
anos, de um rigor descritivo que não abre mão do olhar apaixonado do
repórter. Repórter que não trai a verdade, porém, para melhor
recuperá-la, utiliza-se da beleza da forma, acrescentando no texto o que
os dados não oferecem.
Dicas de leitura baseada na lista da Revista Venture -
Pandemics: An Essential Reading List e sugestões de nossos usuários.
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